AS CRUZADAS[1]
As Cruzadas se constituíram num dos mais
dramáticos movimentos da História. Sua finalidade principal foi a conquista de bens e dos direitos daqueles que detinham a
propriedade dos meios de produção. Seus agentes executores eram, senão todos,
quase todos tutelados da Igreja Católica Apostólica Romana. A programação,
comando, chefia e controle inicial dessa gigantesca operação bélica coube ao
sanguinário Papa Urbano II que, conforme veremos depois da cronologia que se
segue, em 26 de novembro do ano de 1095, no Concílio de Clermont,
incitou a massa de fiéis e determinou a gigantesca operação bélica. Esta custou
ao mundo milhões de vidas humanas. Só na primeira cruzada os exércitos
comandados pela Igreja ceifou a vida de nada menos do que 500 mil homens. Nem
isto foi capaz de deter a sandice dos papas católicos.
Cavalgando o dorso do poder temporal e determinados a conquistar, bem como ansiosos para
dominar o mundo, eles programaram a monstruosa operação e conspiraram contra a
humanidade, matando indiscriminadamente todos que atravessassem à frente dos
seus exércitos.
Os famigerados reis, príncipes, duques,
condes e outros tantos nobres de sangue, totalmente enlouquecidos e iludidos
com as promessas de conquista de terras e poder, marcharam contra o Oriente
Médio. Por onde passavam, destruíam tudo que encontravam pelo caminho. Nesta
primeira parte deste breve histórico encontra-se uma descrição cronológica das
diversas etapas dessa vergonhosa operação, assim como das personalidades que
direta ou indiretamente, antes ou durante, estiveram envolvidas neste
lamentável episódio que ficou conhecido como as cruzadas. (Por Reivax)
Cronologia
dos antecedentes daquele fatídico movimento
622. Maomé
(570-632) é obrigado a sair de Meca, retirando-se para Medina, atual cidade do
profeta, dando início a Hégira ou exílio deste
notável profeta. Nessa mesma data, tem início a contagem do calendário
muçulmano, cuja data inicial é 16 de Julho de 622.
630. Em 01 de
janeiro desse mesmo ano, Maomé regressa a Meca, após ter derrotado as forças
que se organizaram contra ele em Meca, bem como silenciado os seus aliados.
Começa aí o triunfo da doutrina mulçumana na Arábia Saudita .
632. Maomé morre
em Medina e Abu Bakr é escolhido por aclamação como
seu sucessor e primeiro califa. Os chamados falsos profetas e as tribos rebeldes
são derrotados;
634 a 644. Surge o
califa Omar, primeiro a usar o título de Amir al-Muminin ou príncipe dos Fiéis. Fortalecido pela nova
religião, o califa transforma o Estado nacional árabe num império teocrático
internacional, estabelecendo uma administração militar. O chefe das tropas de
ocupação foi transformado em governador civil, chefe religioso e juiz temporal;
634. Teodoro,
irmão do imperador bizantino Heráclio foi derrotado
em Ajnadayn, pelo exército árabe, entre Gaza e
Jerusalém;
636. Mais uma
derrota é capitalizada em favor dos mulçumanos. Desta vez, a vítima foi o
exército bizantino, em Yarmuk, ao sul do Lago
Tiberíades;
638. O califa
Omar apodera-se de Jerusalém. Ainda nesse ano, a Palestina e a Síria são
conquistadas;
639 a 641. A Mesopotâmia,
atual Iraque, foi conquistada pelos exércitos religiosos árabes;
642. Até o
indomável Egito entrou na dança e foi conquistado, sendo sua negociação
conduzida pelo patriarca de Alexandria. As condições estabelecidas nessa
negociação garantiram a segurança das pessoas e seus bens, bem como a liberdade
de culto para os cristãos. Data dessa mesma época a Fundação do Cairo, al-Fustât;
649. As
conquistas muçulmanas não pararam por aí e a próxima vítima foi o Chipre;
655. As
atividades bélicas mulçumanas prosseguiram e a Conquista de Cabul foi
inevitável;
687.
Fortalecidos e com muito dinheiro, usurpado em função das atividades militares,
os mulçumanos dão início à construção da mesquita de Omar, em Jerusalém;
711. A sede de
conquista dos mulçumanos não para. Assim, nesse ano, a Península Ibérica foi
invadida. Rodrigo, último rei visigodo foi derrotado e os espanhóis subjugados.
De quebra, a região do Indo, atual Paquistão e Afeganistão, também foram
vítimas dos mulçumanos, cuja sede de poder parecia não ter limites;
716 – 717. Nessa
oportunidade, a ousadia dos mulçumanos já era tamanha que uma das maiores e
mais potentes cidades daquela época, Constantinopla, foi sediada pelos
exércitos islâmicos;
732. Com a
Batalha de Poitiers, ocorreu o fim da expansão árabe
na Europa;
747. Sublevação
abássida no Kkorassan. Nota: Abássida é atributo
relativo à dinastia dos abássidas ou indivíduo dessa dinastia, composta dos
califas muçulmanos que se consideravam descendentes de Abbas, tio de Maomé, e
que reinou em Bagdá de 750 a 1258;
750. Derrota do
último califa Omíada de Damasco, na batalha do Grande
Zab, na Pérsia revoltada pelos Chiitas;
750 – 1258. Abu al-Abba funda e dá suporte à Dinastia Abássida, sediada em Bagdadá, a nova cidade implantada às margens do rio Tigre;
755 – 1031. Criado o
Emirado, estado ou região chefiada por um emir e, mais tarde Califado (929) ou
conjunto de princípios seguidos por chefes políticos e religiosos, após a morte
de Maomé. Nesse mesmo período foi criada a Omíada de Córdova, na Península Ibérica, cuja fundação é atribuída a Abd al-Rahman,
fugido do massacre dos omíadas em Damasco;
800. Mercadores
muçulmanos se estabeleceram em Cantão e fundaram uma fábrica de papel em Bagdá;
809. Ocorreu a
morte do califa Haroun al-Rachid, conhecido pelas Mil
e Uma Noites. Nesse período registrou-se o apogeu do império árabe;
825. A Ilha de
Creta foi ocupada pelos muçulmanos, cujas atividades voltaram a entrar em ação;
827. O Mutazilismo, escola do Islã clássico, foi fortemente
influenciado pelo racionalismo e proclamando doutrina oficial;
830 Por essa
ocasião os árabes realizaram as primeiras peregrinações a Santiago de Compostela;
831. Os árabes
insistem na conquista dos demais povos e Palermo, na Sicília, não escapa à
sandice deles;
842. A conquista
de Messina, na Sicília, deu-se por essa ocasião e a de Tarento,
na Península Itálica, foi mais um feito dos Árabes;
842 – 902. As
conquistas se intensificaram e a queda da Sicília foi mais uma das façanhas dos
Árabes;
846. Nem um dos
maiores e mais respeitados impérios da época, a histórica e poderosa Roma,
escapou das incursões Mulçumanas;
857. Morre Muhâsibi, um dos primeiros e mais influentes membros do
islamismo;
864. Surge a
doutrina do «encerramento das portas do raciocínio individual» em matéria de
interpretação da Lei;
868 – 883. Revolta dos escravos negros ou Zandj, no
Baixo-Iraque;
869. Os árabes
conquistaram a ilha de Malta;
874. Registra-se
o nascimento do teólogo al-Ash'ari
e deu-se a conciliação do racionalismo mu'tazilita
com o tradicionalismo sunnita;
875.
Comerciantes muçulmanos foram massacrados na China;
940 – 1258. O califado
dos Abássidas fracassa e perde toda e qualquer importância política. Assim, surgem
as revoltas chiitas. Devido à incompetência do
califa, surgem várias dinastias locais, cujos príncipes tomam o título de
califa;
960.
Registrou-se a conversão dos Turcos Qarakhânidasao ao
Islã;
961. Creta é
reconquistada pelos bizantinos;
962. Registra-se
a fundação da dinastia Ghaznévida, no Afeganistão,
constituindo-se na primeira dinastia turca no mundo muçulmano, cujo predomínio
estendeu-se até 1186, quando os Bizantinos retomaram Alepo;
969. Os Fatimidas, espécie de dinastia que surgiu ao Norte de
África por volta de 910, apoderam-se do Egito e fundaram o novo Cairo (al-Aâhira). Nesse mesmo ano, os
Bizantinos voltam a ocupar Antioquia;
993. Nasceu Ibn Al Hazm,
poeta e teólogo andaluz que defendia a interpretação literal do Al Kuram, bem como da tradição islâmica.
996. Massacre de
mercadores de Amalfi, porto no sul de Itália, no
Cairo;
997. Registra-se
a incursão muçulmana contra S. Tiago de Compostela;
1009. O califa fatimida do Cairo, al-Hakim, mandou destruir as igrejas de Jerusalém;
1017. Marco
inicial do começo da pregação drusa;
1019. O califado
de Bagdá proclamou um credo de inspiração hanbalita,
uma das quatro escolas do Islã sunnita, a qual se
caracterizou pela atenção dispensada ao respeito da tradição corânica e
profética. Uma 2ª proclamação deu-se em 1042 e uma 3ª, em 1053;
1031. Ocorre o
fim do Califado de Córdova. As possessões muçulmanas
da Península Ibérica foram repartidas em principados ou tawa'if,
conhecidos por Taifas;
1035.
Peregrinação a Jerusalém de Roberto, o Diabo ou o Magnífico, duque da Normandia;
1036. Os
Muçulmanos e os Bizantinos concordaram em reconstruir as igrejas cristãs de
Jerusalém;
1040. Vitória dos
Turcos Seljúcidas sobre os Ghaznévidas em Dandanaqan;
1043. Miguel Cerulário torna-se patriarca de Jerusalém;
1054. A 25 de
Julho, ocorreu o Cisma entre Roma e Constantinopla.
Miguel Cerulário, que fora excomungado pelo papa Leão
IX, excomungou todos os latinos;
1055. Os Turcos
seljúcidas conquistaram Bagdá;
1062. Os
mulçumanos, já bastante odiados pelas suas agressividades bélicas, atraiam a rejeição
de todos. Diante do fato, o papa Alexandre II aproveitou o momento para
conceder perdão dos pecados a quem os combatesse;
1063. Início da
cruzada de cavaleiros borgonheses à Península Ibérica. Em 1064, o exército
cruzado conquista a cidade de Barbastro, após 4 meses de impiedoso cerco. Ainda no ano de 1064, o
arcebispo Gunther de Maiença
e os bispos Guilherme de Utrecht e Otto de Ratisbona
organizaram uma peregrinação de 7.000 pessoas a Jerusalém;
1071. Em 19 de
Agosto, os Bizantinos foram derrotados pelos Turcos Seljucidas,
em Manzikert;
1080. Mercadores
de Amalfi fundaram, perto do Santo Sepulcro, o
hospital de São João de Jerusalém, para recolher e prestar socorro aos
peregrinos pobres que eram agredidos e espoliados de todas as formas possíveis
pelos árabes. Data dessa mesma ocasião a fundação da
seita muçulmana dos Assassinos;
1081. Aleixo Comneno foi declarado o imperador do Oriente;
1082. Devido à
ajuda prestada contra os Normandos, Veneza obteve o direito de comerciar em
todo o Império Bizantino, sem pagar direitos alfandegários;
1084. Antioquia
caiu nas mãos dos Turcos;
1085. Os
Normandos dominaram a Sicília e Toledo foi conquistada por Afonso VI de Castela;
1086. Afonso VI de Castela foi vencido na batalha de Sagrajar, pelos berberes almorávidas, chamados à Península
Ibérica pelos reis muçulmanos das Taifas, devido à conquista de Toledo;
1086 – 1090. Nesse
período, intensificou-se a peregrinação à Terra Santa, sendo que entre os
peregrinos consta o registro da presença do conde de Flandres, Roberto de Frison;
1087. Ocorreu uma
cruzada francesa à Espanha, organizada por Urbano II, e dirigida por Raimundo
de Saint-Gilles, conde de Toulouse e Eudes I, duque da Borgonha;
1090. Os
Normandos Conquistaram Malta e os “Assassinos” apoderaram-se do castelo de Alamute, na Pérsia;
1092. Os
“Assassinos” mataram o vizir Nizam al-Mulk.
AS CRUZADAS[2] – DRAMÁTICO E SINTÉTICO RELATO
Vejam a seguir alguns dos inacreditáveis
e dramáticos relatos dum dos discursos que antecederam as cruzadas, o qual foi
proferido em 26 de novembro do ano de 1095, no Concílio de Clermont,
sendo atribuída a sua autoria ao Papa Urbano II. Nos bons tempos, Sua Santidade
Urbano II, progrediu por terrenos incertos, auxiliado por cardeais e bispos.
Nos bons tempos, sua santidade, Urbano II, progrediu por terrenos incertos,
assessorado e auxiliado por cardeais e bispos que se não eram fanáticos
criminosos, no melhor das hipóteses, eram omissos, corruptos e irresponsáveis.
Vejamos mais alguns extratos do discurso proferido no Concílio de Nicéia pelo
fanático e irresponsável Papa. Ali, naquela data fatídica, ele abençoou-se e
louvou-se com o sinal da Cruz. Ergueu suas mãos em sinal de silêncio. A
multidão em reverência calou-se. Então falou com doçura e eloquente persuasão.
“Ó Francos, de quantas maneiras Nosso
Senhor os abençoou? Vejam quão férteis são suas terras. Quão verdadeira é sua
fé. Quão indisputável é sua coragem. A vocês, abençoados homens de Deus, dirijo
essas palavras. E que não sejam levadas levianamente, pois são
expressas pela Santa Igreja, que, pelo sagrado pacto com Nosso Senhor, é Sua
santíssima voz na terra. Vós que sois justos e bons, vós que brilhais em santa
fé escutai. Que saibam de justa e grave causa que nos reúne hoje aqui, sob o
mesmo teto, na piedade de Nosso Senhor. Relataremos fatos horríveis. Ouvimos
sobre uma raça de homens saídos de presença profana e falta de fé. Turcos,
Persas, Árabes, amaldiçoados, estranhos a nosso Deus, que devastam por fogo ou
espada as muralhas de Constantinopla, o Braço de São Jorge. Até hoje, por
misericórdia do Supremo, Constantinopla foi nossa pedra, nosso bastião de fé em
território infiel. Agora essa sagrada cidade encontra-se desfigurada, ameaçada.
Quantas igrejas esses inimigos de Deus poluíram e destruíram? Ouvimos de
altares e relíquias sendo dessecrados por sujeira
produzida por corpos Turcos. Ouvimos sobre verdadeiros crentes sendo
circuncidados e o sangue desse ato sendo vertido em pias batismais. O que
podemos dizer a vocês? Turcos transformam solo sagrado em estábulo e chiqueiro,
expelem o conteúdo de seus fétidos e putrefatos corpos em vestimentas dos
emissários da palavra de Nosso Senhor. Os descrentes forçam Cristãos a ajoelhar
sobre essas roupas imundas, curvar as cabeças e esperar o golpe da espada. Essas
vestes, que através da imundície e sangue são testemunhas de aberrações na
falta da verdadeira fé, são exibidas junto com corpos dos mártires. O que mais
devemos lhes dizer, ó fieis? Turcos abusam de mulheres Cristãs. Turcos abusam
de crianças Cristãs. Pensem nos peregrinos da fé que cruzam o mar, obrigados a
pagar passagem em todos os portões e igrejas de todas as cidades. Quão frequente
esses irmãos no sangue do Cristo passam por humilhações e falsas acusações? Aqueles que creem em pobreza, como são recebidos
nesses lugares de nenhuma fé? São vasculhados em busca de moedas escondidas. As
calosidades em seus joelhos, causadas pelo ato de fé ao Nosso Senhor, são
abertas por lâminas. Aos fiéis são dadas bebidas de natureza vomitória para que
sejam vasculhadas suas emissões estomacais. Após isso são ainda obrigados a
sorver excremento liquefeito de bodes e cabras de forma a esvaziar suas
entranhas. Se nada for encontrado que satisfaça essas crias infernais, ó fieis,
escutem. Turcos abrem com lâmina da espada as barrigas dos verdadeiros
seguidores, em busca de peças de ouro ingeridas e assim escondidas. Espalham e
retalham entranhas mostrando assim o que a natureza matéria secreta. Tudo a
procura de riquezas ou por prazer insano. Turcos perfuram os umbigos dos fiéis,
amarram suas tripas a estacas e afastam os Cristãos, prendendo-os com cordas a
outro poste, de forma a que vejam suas próprias entranhas endurecendo ao sol,
apodrecendo e sendo consumidas por corvos e vermes. Os Turcos perfuram irmãos
na fé com setas, fazem dos mais velhos alvos móveis para seus malditos arcos.
Queimam os braços e pernas dos mártires até o negro e soltam cães famintos para
os devorar, ainda vivos. Ó Francos, o que dizer? O que
mais deve ser dito? A quem, pois, deve ser dirigida a tarefa de vingança tão
santa quanto a espada de São Miguel? A quem Nosso
Senhor poderia confiar tal tarefa senão aos seus mais abençoados e fiéis
filhos? Ó Francos, vocês não são habilidosos cavaleiros? Poderosos guerreiros
na palavra de Deus? Próximos a São Miguel na habilidade de expurgar o mal pela
espada? Dê um passo à frente! Não mais levantarão as espadas entre si, ceifando
vidas e pecando contra a Palavra. Aproximem-se guerreiros abençoados. Os que
dentre vocês roubaram tornem-se agora soldados, pois a causa é suprema. Aqueles
que cultivam mágoas juntem-se aos seus causadores, pois a irmandade é essencial
ao objetivo. Aproximem-se os que desejam vida eterna, aproximem-se os que
desejam absolvição no sagrado. Saibam que Nosso Senhor espera seus filhos em lugar
abençoado. Na palavra do Santíssimo seguirão e combaterão, não deixem que
obstáculos os parem, creiam na Palavra e nada os deterá. Deixem todas as
controvérsias para trás! Unam-se e acreditem! Não permitam que posses ou
família os detenham. Lembrem-se das palavras de Nosso Salvador, “”Aquele que abandonar sua morada, família, riqueza, títulos,
pai ou mãe pelo meu nome, receberá mil vezes mais e herdará a vida eterna””. Se
os Macabeus dos tempos de outrora conquistaram glória
pela sua luta de fé, da mesma forma a chance é ofertada a vocês. Resgatem a
Cruz, o Sangue e a Tumba. Resgatem o Gólgota e santifiquem o local. No passado
vocês não lutaram em perdição? Não levantaram aço contra iguais? Orgulho,
avareza e ganância não foram suas diretivas? Por isso vocês merecem a danação,
o fogo e a morte perpétua. Nosso Senhor em sua infinita sabedoria e bondade
oferece aos seus bravos, porém desvirtuados filhos, a chance de redenção. A
recompensa do sagrado martírio. Ó Francos,ouçam!
Deixem a chama sagrada queimar em seus corações! Levem justiça em nome do
Supremo! Francos! A Palestina é lugar de leite e mel fluindo, território
precioso aos olhos de Deus. Um lugar a ser conquistado e mantido apenas pela
fé. Pois chamamos por suas espadas! Lutem contra a amaldiçoada raça que avilta
a terra sagrada, Jerusalém, fértil acima de todas outras. Glorifiquem suas
peregrinações para o centro do mundo, consagrem-se em Sua paixão! Alcancem a
redenção pela Sua morte! Glorificado pelo Seu túmulo! O caminho será longo, a
fé no Onipotente tornar-lhe-á possível e frutífera. Não temam Francos! Não
temam tortura, pois nela reside a glória do martírio! Não temam a morte, pois
nela reside a vida eterna! Não temam dor, pois serão resignados! Os anjos
apresentarão suas almas a Deus, o Santíssimo será glorificado pelos atos de
seus filhos! Vejam a sua frente aquele que é voz de Nosso Senhor! Sigam Sua
presença e palavras eternas! Marchem certos da expiação de seus pecados, na
certeza da glória imortal. Deixem as hordas do Cristo Rei se atracar com o
inimigo! Os anjos cantarão suas vitórias! Que os conhecedores Da palavra entrem
em Jerusalém portando o estandarte de Nosso Senhor e salvador! Que o símbolo da
fé seja mostrado em vermelho sobre o imaculado branco, pureza e sofrimento
expressados! E que Sua palavra se faça ouvida como retumbante trovão, trazendo
medo e luz para os infiéis! Que agora o exército do Deus único grite em glória
sobre os Seus inimigos!”. “Louvado seja o Senhor meu Deus!”.
Gritaram as centenas de cavaleiros
Francos reunidos no campo de Clermont. E as Cruzadas
tiveram início...
Acompanhem este outro interessante
relato.
Segundo Foucher
de Chartres (Cronista Cristão no tempo da primeira
Cruzada), em 26 de novembro do ano de 1095, no Concílio de Clermont,
Urbano II Proferiu o seu famoso discurso nos termos infracitados, dando início
à primeira cruzada.
Veja, a seguir, o histórico discurso que
circula na Internet.
Meus queridos irmãos, ungido pela
necessidade, eu, Urbano, com a permissão de Deus o bispo chefe e prelado de todo
o mundo, vim até esse lugar na qualidade de embaixador, trazendo uma mensagem
divina a todos os servos de Deus.
Vim aqui com a esperança de os encontrar no serviço do Senhor, fiéis e zelosos, como é
de se esperar. Porém, se há alguma deformidade ou fraqueza contrariando a lei
divina, invocamos sua ajuda e faremos o mais que pudermos para erradicar isso.
Porque o Senhor os tem posto como criados em sua família. Felizes
sereis se encontrares fileiras a vosso ministério. Somos chamados
pastores, esmeramos em atuar como pastores, porém, sedes bons pastores. Sempre
levando o povo em suas mãos. Não durma, apenas guardes todo o tempo o rebanho
que assim o tem chamado. Porque se por vossa negligência vem um lobo e arrebata
uma só ovelha, então, não sereis dignos da recompensa que Deus havia reservado
para vós. E depois de haverem sido flagelados impiedosamente por vossas faltas,
sereis oprimidos com as penas do inferno, a residência
da morte. Sabeis-vos que foram chamados no evangelho de sal da terra (Mateus 5:13), porém, se faltarem a vossos deveres, como, se
perguntaram todos, se poderá salgar a terra? Oh, que tão grande é a necessidade
de sal!!!
Em todo o caso, é necessário que vos se
corrijam, dando o sal da sabedoria a todos aqueles ignorantes que estão
entregues aos prazeres do mundo. Não vêem que o
Senhor, quando quer dirigir-se a eles, os encontra putrefatos em meio aos seus
pecados necessitados em se curar. Pois, se Deus encontra dentro deles vermes, a
se saber, pecados, porque vossa negligência os deixou doentes. Os declarará com
imprestáveis, merecedores unicamente de ser jogados no abismo onde se joga as
coisas ruins. E já que vós, não podeis evitar ao Senhor estas graves perdas,
seguramente, Ele os condenará e os afastará de sua doce presença. Pois aquele
que administra o sal deve ser prudente, sábio, modesto, instruído, pacífico,
observador, piedoso, justo, equilibrado e puro.
Porque como pode o ignorante ensinar aos
outros? Como pode o licencioso ser modesto aos outros? Como pode o impuro ser
puro aos outros? Como pode alguém que odeia a paz acalmar os ânimos dos outros?
E como pode alguém que esta manchado em sua mãos com a
vilania limpar as impurezas dos outros? E bem disse as Escrituras que se os
cegos guiam os outros cegos, todos iram a sarjeta (Mateus 15:14).
Primeiro corrijas a vós para que assim, livres de toda a culpa, poderem limpar aqueles que vivem abaixo de vossas
jurisdições.
Se quiserem ser
amigos de Deus, o façam de boa vontade para Ele e para seu lugar. Em
particular, deveis deixar que todos os assuntos da igreja se guiem
pela lei da igreja. E tens cuidado em que a simonia
(Tráfico criminoso de objetos sagrados, venda ilícita de coisas santas ou
espirituais) não aches raízes em vós, não sejam como aqueles que compram e como
aqueles que vendem (Investiduras) eles serão golpeados pelos açoites do Senhor
entre ruas estreitas e serão logo levados para o lugar da destruição e da confusão.
Mantendo a Igreja e o clero, em todos os
seus agrados, completamente livres da influência do poder secular. Verifiquem
que à parte da produção de terra que corresponde a Deus seja paga por todos;
que esta não seja vendida e retida. Se alguém captura e retém um bispo, é
permitido que o trate como um bandido. Se alguém sequestra
e rouba um monge, clérigos, monjas, seus serventes, peregrinos, mercadores,
permitam que os considerem a anátema (Excomunhão).
Deixai que os ladrões e os incendiários
sejam excomungados junto com todos os seus cúmplices. Se um homem não é capaz
de dar nunca uma parte de seus bens em donativo é castigado com as punições do
inferno, como não vai ser castigado aquele que remove os bens dos outros? Por
isso foi castigado o homem rico que fala o evangelho (Lucas 16:19)
Não por ter removido os bens dos outros, senão por não haver empenhado
corretamente os próprios. Vós sabeis e tem visto a grande desordem que estes
crimes estão produzindo no mundo. És tão grande em
algumas províncias, eu escutei, e tão débil é vossa administração de justiça,
que dificilmente pode viajar de dia ou de noite sem ser atacado por ladrões, e
sei que se estando em casa ou longe dela, sempre existe o perigo de ser
despojado de seus bens ou por força ou por fraude. Por tanto, é necessário
voltar a por em prática a trégua, como se conhece comumente, a qual foi
instaurada fazem vários anos por nossos santos padres. Os exorto e exijo que
cada qual se esforce para que se cumpra a trégua em suas respectivas dioceses.
E se alguém for levado por sua arrogância a romper essa trégua, pela autoridade
de Deus e com a aprovação dessa assembleia deve ser então declarado a anátema.
Embora, oh filhos de Deus, vos sabeis, prometeram mais firmemente que nunca
manter a paz entre vocês e manter os decretos da Igreja, ainda existe um
importante trabalho que devem realizar.
Ungidos pela correção divina devem
aplicar a força de vossa retidão a um assunto que interessa a Deus. Posto que
vossos irmãos que vivem no Oriente, requerem urgentemente as vossas ajudas, e
vós deveis esmerar para prestar-lhes a assistência que a eles vem sendo
prometida faz tanto tempo. Aí que, como sabeis todos, os Turcos e os árabes, os
tens atacado e estão conquistando vastos territórios
da terra de România (Império Bizantino), tanto no oeste como na costa do
Mediterrâneo e em Helesponto, que é chamado o braço
de São Jorge. Estão ocupando cada vez mais e mais os territórios cristãos, e já
venceram sete batalhas. Estão matando e capturando muitos, e destruindo as
igrejas e devastando o império. Se vós, impuramente, permitirdes que isso
continue acontecendo, os fieis de Deus seguiram sendo atacados, cada vez mais
com dureza. Em vista disso, eu, e não bastante, Deus, os designa como herdeiros
de Cristo para anunciar em todas as partes e para convencer as pessoas de todas as gamas, os infantes e cavaleiros, para socorrer
prontamente aqueles cristãos e destruir a essa raça vil que ocupa as terras de
nossos irmãos.
Digo isto para os presentes, mas também
se aplica àqueles ausentes. Mais ainda, Cristo mesmo os ordena. Todos aqueles
que morrerem pelo caminho, seja por mar ou por terra, em batalha contra os
pagãos, serão absolvidos de todos seus pecados. Isso
lhe é garantido por meio do poder com que Deus me investiu. Oh terrível
desgraça se uma raça tão cruel e baixa, que adora demônios, conquistar a um
povo que possui a fé de Deus onipotente e tem sido glorificado em nome de
Cristo! Com quantas reprovações nos oprimiria o Senhor se não ajudarmos a
aqueles, que como nós, professam a fé de Cristo! Façamos que aqueles que estão
promovendo a guerra entre fieis marchem agora a combater contra os infiéis e
conclua em vitória uma guerra que deveria ter se iniciado há muito tempo.
Que aqueles que por muito tempo tem sido foragidos, que agora sejam cavaleiros. Que aqueles
que estão pelejando com seus irmãos e parentes, que agora lutem de maneira
apropriada contra os bárbaros. Que aqueles que estão servindo de mercenários
por pequena quantia, ganhem agora a recompensa eterna. Que aqueles que hoje se
malograram em corpo tanto como em alma, se dispunham a lutar por uma honra em
dobro. Vejam! Neste lado estarão os que lamentam e os pobres, e neste outro, os
ricos; neste lado, os inimigos do Senhor, e em outro, seus amigos. Que aqueles que decidam ir não adiem a viajem senão que produzam em
suas terras e reúnam dinheiro para os gastos; e que, uma vez concluído o
inverno e chegada à primavera, se ponham em marcha com Deus como guia".
Durante a proposta de alistamento, consta que Pedro, o Eremita, teria gritado
Deus vult, o que todos repetiram em uma só voz:
"Deus vult! Deus vult!" (Deus quer!). Os cristãos ficaram convencidos da
justiça de sua causa e decidiram pela guerra. A partida foi então programada
para 15 de agosto de 1096. Para distinguir o exército católico de qualquer
outro movimento, o Papa determinou que os seus homens usassem uma cruz vermelha
costurada a roupa. Diz Urbano II "...a conselho do espírito santo."
A Primeira
Cruzada – 1196
Entre vários príncipes ilustres, o nome
de Godofredo de Bouillon (1058 – 1100) foi escolhido
para comandar o exército. Descendente de Carlos Magno, pelo lado materno. Irmão
do conde de Boulogne, e senhor de Bouillon
em Ardennes. Um homem que já tinha mostrado sua força
e coragem até contra a própria igreja, quando foi o primeiro a escalar os muros
de Roma combatendo contra o Papa Hidelbrando (S. Gregório VII), quando servia
ao rei alemão Henrique IV. E foi Godofredo que antes, matara Rodolfo com sua
lança, o rei rebelde, que a igreja apoiara. (1080). Movido por um profundo
arrependimento, Godofredo queria agora ser mártir pela libertação do Santo
Sepulcro. Os chefes da Igreja viram neste guerreiro, um aliado poderoso e fiel.
Dizem:
"A prudência e a moderação temperavam seu valor. Sua piedade era
sincera e cega."
Seus irmãos, Eustáquio, o mais velho, e Balduíno, o mais moço, o acompanhavam. Quando a noticia da
formação oficial da 1ª cruzada se espalhou o povo começou seus preparativos.
Camponeses, mulheres e crianças partiram em marcha e os velhos aproveitavam a
oportunidade de verem o santo sepulcro sob a proteção de um formidável
exército. Diziam eles aos guerreiros: "Vós sois valentes e fortes,
combatereis; nós sofreremos como o Cristo e faremos a conquista do céu".
Como conseqüência, a mais imediata das cruzadas, as
terras e os castelos, as ferramentas de trabalho no campo e o gado, baixaram
extraordinariamente de preço pelo excesso de ofertas. Em compensação, as armas
e os cavalos subiram a preços fantásticos. Em vista da dificuldade que teriam para
se manter uma formação numerosa, os príncipes acertaram de se encontrar nos
arredores de Constantinopla. Até ai cada um mantinha como melhor pudesse a sua
gente. Godofredo atravessou a Alemanha, que ele conhecia bem, quase em linha
reta.
O Fabuloso exército contava com os
Príncipes:
1.
Godofredo de Bouillon,
Duque de Lorena que reuniu 80.000 homens de infantaria e 10.000 cavaleiros. Seu
ataque resultou na conquista de Jerusalém. Foi proclamado rei de Jerusalém, mas
preferiu ser denominado como o "Protetor do Santo Sepulcro", após a
queda da cidade em 1099. Era visto como um grande cavaleiro e muito devotado ao
Cristianismo. Fundou uma ordem chamada Prioré de Zion - Priorado do Sião;
2.
Boemundo da Sicília -
Príncipe de Trento, governador do sul da Itália, que trouxe 20.000 infantes e
10.000 cavaleiros;
3.
Roberto - Duque de Flandres;
4.
Hugo, Duque de Vermandois,
irmão mais moço do Rei de França;
5.
Roberto II, Duque da Normandia, filho de
Guilherme, o conquistador, vendeu o reino e o ducado à
seu irmão e partiu para a cruzada;
6.
Estevão, Conde de Chartres;
7.
Estevão, Conde de Blois,
casado com Ade-la, Filha de Guilherme, o conquistador. Esse desertou na
Primeira Cruzada;
8.
Raimundo de Saint Gilles, Conde de
Toulouse;
9.
Raimundo, Duque de Marbona;
10.
Raimundo, Marques de Provença.
Na fronteira com a Hungria, os húngaros
lembraram muito bem o que Pedro, o Eremita e seu povo fizeram e tentaram
impedir a passagem de Godofredo. Ele bem que podia ter atravessado a força,
porque seu exército era muito mais forte. Mas, sua virtude fez com que pedisse
desculpas pelos excessos cometidos pelos seus irmãos. Pediu humildemente a
passagem livre e mantimentos, ao preço corrente de mercado. Enquanto Godofredo
e seu irmão iam entregar-se ao rei Carlos da Hungria como garantia. Godofredo
conteve a ferocidade de seus cruzados em território húngaro, sob
pena de morte. Atravessada a Bulgária,
Godofredo foi pela Dalmácia e a Sclavonia.
Todavia, os cruzados enfrentaram o mesmo
problema da Hungria em Constantinopla. Os papéis se inverteram e os cruzados
eram agora, mais temíveis que os turcos. Alexis Comneno
quis também lhe impedir a passagem. A presença de Boemundo
de Tentro, que ele muito bem conhecia, o fez mudar de
ideia. O mesmo aconteceu com Hugo, Duque de Vermondois
que ficou prisioneiro de Alexis, como garantia de que seus soldados se
comportassem na cidade. Mas Roberto da França, que aprendeu a lidar com
situações difíceis com seu pai, Guilherme, o conquistador, obrigou-o a libertar
o Duque. Boemundo indignado com as atitudes do
imperador queria que Godofredo depusesse Aleixo Comneno.
Godofredo não somente resistiu a fazer-lhe a vontade, como conseguiu que os
cruzados prestassem homenagem ao imperador bizantino. Além de tudo, fez-lhe uma
promessa de devolver-lhe todas as terras que perdera aos turcos. Depois dessa
intrincada missão diplomática, a travessia marítima foi feita sem problemas.
Na primavera de 1097, os cruzados
entraram na Ásia. Formavam um exército de 100.000 cavaleiros de elmo e cota
(armadura/malha metálica com que se cobria o corpo), seguidos de 400.000
infantes, sem contar padres, monges, mulheres e crianças. A travessia do
deserto foi mais difícil...
"... Os homens mais robustos deitavam-se na areia, cavavam a
superfície ardente para encontrar mais abaixo o solo fresco e nele colar à boca
ressequida. Os próprios animais não resistiram... Podia-se rir ou chorar, como
se quiser, vendo que por falta de bestas de carga, carregavam as bagagens sobre
carneiros, cabras, porcos e cães. Viu-se mais de um cavaleiro montar um boi a
guisa de cavalo de batalha."
Tomaram Nicéia e ganharam uma batalha
desesperada na Frígia (Batalha de Ascalon, ganha dos
Muçulmanos). Quando os cruzados chegaram a Antioquia, e preparavam para sitiar
a cidade, apenas dois dias depois, foram surpreendidos pelo exército de Kerboga, sultão de Mossul.
Desesperados e com fome esgotaram rapidamente seus mantimentos e se viram
obrigados a abaterem seus cavalos e outros animais, inclusive ratos e cães, e
dizem, até a comer a carne dos turcos, que para eles eram apenas animais. Estavam destinados ao fracasso, quando Raimundo, o Conde de
Toulouse recebeu um pobre padre provençal chamado Pedro Bartolomeu, que lhe
disse que o apóstolo André lhe tinha aparecido em sonhos e lhe dissera que uma
relíquia capaz de trazer a vitória aos cruzados - a lança que traspassara o
flanco de Jesus crucificado - estava enterrada no solo de uma das igrejas da
cidade de Petrus Raimundo seguiu o homem até a igreja
que indicava e mandou escavar o solo. Doze homens escavaram o dia todo,
enquanto milhares de cruzados esperavam no lado de fora. Perto do Crepúsculo, o
próprio Pedro desceu à escavação e voltou trazendo na mão a lança sagrada.
Uma enorme ovação saudou sua reaparição.
Quando os cruzados avançaram, precedidos da lança sagrada, mostraram-se
irresistíveis. Comandava-os Boemundo. Graças ao seu
incomparável talento militar e à fé fanática dos seus homens, as numerosas
forças de Kerboga foram postas em debandada. No campo
turco abandonado, encontraram víveres e bebidas em abundância, o que lhes
garantiria a estadia prolongada ao sítio de Antioquia. Depois de oito meses de
luta, tomaram a cidade que resistira desesperadamente. A vitória de Antioquia
(1098) foi em todos os tempos celebrada como a mais admirável ação de todas as
cruzadas, mas custou aos cruzados a fina flor de suas tropas. A devastação pela
guerra, pela fome, pela peste, e as deserções, acabaram reduzindo o exército
primitivo a 40.000 homens, apenas. Em junho de 1099, os cruzados chegaram em Jerusalém, em lágrimas beijavam o solo. Em uma primeira
investida, as grossas muralhas e as torres da cidade, contiveram as tropas de
Godofredo. Sendo obrigado a empregar um cerco. Os soldados sofriam com o calor
e pegavam a água do rio Jordão. Neste meio tempo foram construídas máquinas de
arremesso e torres móveis. Mas os sitiantes contavam com menos lanças que os
sitiados. O cerco durou 30 dias. No dia 13 de julho, com as máquinas prontas,
os cruzados tentaram mais uma investida. Depois de dois dias de batalha
furiosa, no dia 15 de julho de 1099, uma sexta-feira santa, os cruzados tomaram
Jerusalém.
"... Alguns jovens acenderam flechas e lançaram-nas abrasadas sobre
os colchões que guarneciam os redutos que os Sarracenos tinham construído a
frente da torre de madeira que os cruzados haviam erguido. Esses colchões
estavam cheios de algodão. O fogo pôs em fuga os que defendiam essa obra
fortificada. Então o duque e os que com ele se achavam reconstruíram
imediatamente a sebe que recobria a parte anterior da torre de madeira, desde o
cimo até o meio, e, tendo feito uma espécie de ponte, lançaram-se
intrepidamente para penetrar em Jerusalém. Todos os outros subiram atrás deles.
Como os nossos se achavam de posse da muralha e das torres, viram-se coisas
admiráveis. Entre os Sarracenos, uns tinham a cabeça cortada, o que era para
eles a sorte mais suave. Outros, atravessados por flechas, viam-se forçados a
saltar do alto das torres. Outros ainda, após
prolongados sofrimentos, eram entregues as chamas e consumidos por elas.
Viam-se nas ruas e nas praças montes de cabeças, de mãos, de pés. Infantes e
cavaleiros abriam caminho através dos cadáveres. Mas tudo isso era pouco. No
templo e no pórtico de Salomão, nadava-se no sangue, até o joelho, dos
cavaleiros e até as rédeas do cavalo. Justo e admirável o julgamento de Deus,
que desejou recebesse aquele lugar o sangue dos que blasfemaram contra Ele,
conspurcando por tanto tempo esse território".
Godofredo e seus cavaleiros entraram no
Santo Sepulcro com a cabeça descoberta, pés descalços, vestidos de estamenha (tecido grosseiro de lã) e banhados em lágrimas.
Os judeus foram queimados vivos em suas sinagogas. Todos os prisioneiros foram
mortos incluindo, mulheres e crianças. E as ruas de Jerusalém tiveram que ser
lavadas para limpar o sangue. O saque foi colocado em monte comum, benefício
dos sobreviventes e recompensa. Os cruzados agora senhores de Jerusalém,
escolheram para seu rei o homem que os conduziu bravamente. Mas Godofredo
declarou que não lhe seria possível aceitar a coroa de rei, onde Cristo a
tivera de espinhos aceitou o título de barão e defensor do Santo Sepulcro e
assumiu a soberania de um novo reino "O Reino Latino de Jerusalém".
Seguindo o modelo do ocidente, o novo reino foi dividido em feudos. Godofredo
codificou leis e costumes feudais que deviam servir de legislação para o reino
de Jerusalém com o nome de Assizas, pelo qual é
conhecido. O patriarca da igreja grega fugiu imediatamente e as paróquias do
novo reino aceitaram a liturgia latina e a supremacia do papa. O califa do
Egito considerando perigosa a estadia dos cristãos em Jerusalém marchou contra
Godofredo, mas foi vencido.
Godofredo de Bouillon
morreu aos 42 anos, em 1100, de uma moléstia desconhecida. Tendo governado
apenas um ano, e nem esse mesmo completo, deixou seu irmão Balduíno
que o sucedeu. Houve quem atribuísse a sua morte a um veneno
que lhe teria sido ministrado por um emir. A Primeira Cruzada custou à
vida de 500 mil cristãos. Foucher de Chartes escrevia, após a tomada da Terra Santa."Nós
nos tornamos orientais. O habitante de Reims ou de Chartres
transformou-se em Sírio ou em habitantes de Antioquia. Já esquecemos os nossos
lugares de nascimento. Um possui já neste país casas e servidores como se os
tivesse herdado; outro casou-se, não com uma compatriota, mas com uma síria,
uma Armênia ou mesmo uma sarracena convertida... Servimo-nos, alternadamente,
das diversas línguas do país, e a confiança aproxima as raças mais afastadas.
Realizam-se as palavras da Escritura:
·
O leão e o boi comerão na mesma manjedoura;
·
A Reação Muçulmana;
·
A Expansão Europeia no oriente começou
ao norte.
A Segunda
Cruzada – 1147
Edessa foi tomada
em 1144 pelo atabegue Mossul.
Promovida por São Bernardo (Vézalay, 1146) e apoiada
pelo Papa Eugênio III, a segunda cruzada foi integrada pelo rei da França, Luis
VII e o imperador da Alemanha Conrado III. Os dois exércitos dessa expedição
desceram o Danúbio em1147 e alcançaram a Antioquia e Acre por mar em 1148. Após
ter sitiado Damasco em 1148, a desorganização das expedições e os
desentendimentos entre os chefes cruzados resultaram numa fragorosa derrota.
Assim, eles retornaram ao Ocidente em 1149, sem haver tentado libertar Edessa. Os muçulmanos resolviam suas diferenças a seus
modos e, do ponto deles, sob o signo do combate aos infiéis. Saladino retoma Jerusalém em 1187.
SALADINO
Saladino, nascido Salah-ed-Din Yusuf, o grande
sultão do Egito e da Mesopotâmia, um dos maiores líderes muçulmanos na história
dos Cruzados, cujo caráter cavalheiresco causava a admiração dos amigos e dos
inimigos, Reunificou todos os povos árabes contra os Cruzados. Saladino era filho de um chefe curdo. Os curdos, que deram
o nome da região montanhosa conhecida como Curdistão, eram um
povo de origem iraniana, muito corajoso e apaixonado pela liberdade. Saladino não era um semita, mas indo-europeu. Em 1187
proclamou a guerra santa e invadiu a Palestina. O sangrento encontro com o rei
de Jerusalém deu-se junto ao lago de Tiberíade. O
exército cristão foi completamente derrotado e o rei feito prisioneiro. Depois
da vitória de Tiberíade, Saladino
apoderou-se de todas as praças forte que rodeavam Jerusalém e pôs, por fim,
cerco à cidade. As grandes destruições causadas pelas máquinas de assédio tiraram
a coragem dos defensores, que pediram um armistício. De início, Saladino recusou. "Eu quero conquistar Jerusalém como
os cristãos o fizeram há noventa anos. Massacrarei todos os homens e
escravizarei todas as mulheres. Amanhã conquistaremos a cidade”. Os cristãos
responderam: "Se temos de renunciar toda a esperança de negociações,
bater-nos-emos desesperadamente até o último homem, poremos fogo às casas e
destruiremos os santuários. Os cinco mil prisioneiros muçulmanos que temos em
nosso poder serão massacrados. Preferimos destruir todos os nossos bens a
deixá-los para vós e mataremos os nossos filhos. Ninguém ficará vivo e
perdereis todos os frutos da vossa vitória". Esta resposta orgulhosa
obrigou Saladino a refletir e a reunir um conselho de
guerra. Estes aconselharam-no a aceitar a capitulação
de Jerusalém mediante um determinado resgate por habitante. Com estas
condições, a cidade rendeu-se. Eis, pois, a cidade santa em poder dos infiéis.
Entre os gritos de alegria dos muçulmanos e as lamentações dos cristãos, as
igrejas foram transformadas em mesquitas. As cruzes foram arrastadas pela lama
dos caminhos e os sinos despedaçados. Mas depois do pagamento do resgate, os
cristãos foram autorizados a abandonar a cidade. Vários milhares de cristãos
pobres que não tinham como pagar o resgate foram, apesar disso, postos em
liberdade. Saladino mandou-lhe mesmo distribuir
esmolas. Mal esses desgraçados tinham saído das fronteiras da Terra Santa,
foram perto de Trípoli, na Síria, atacados e despojados pelos próprios
correligionários. Depois da queda de Jerusalém, toda a Palestina se encontrava
em poder de Saladino. O Grande Saladino
morreu com 55 anos deixando 17 filhos.
A Terceira
Cruzada – 1189
Com a notícia da tomada de Jerusalém, o
Papa Gregório VIII pregou a terceira cruzada. Participaram dela Ricardo Coração
de Leão, Rei da Inglaterra de, 1189 a 1199, que nasceu em Oxford em 1157, filho
de Henrique II a quem sucedeu no trono. Foi "mau filho, mau irmão e mau
rei". Originando-se seu cognome, coração de leão, de "suas numerosas
aventuras e louca bravura", revelada em inúmeros torneios, adquirindo
grande reputação. Ardente e ambicioso revoltou-se contra o pai, que ao morrer
amaldiçoou Ricardo. Ricardo se juntou com os reis Frederico Barba Roxa,
Imperador do Sacrossanto Império Romano-Germânico e Felipe Augusto da França, e
partiram para a cruzada. Barba Roxa seguiu por terra, abateu os turcos na Ásia
menor, e morreu afogado acidentalmente por haver-se banhado ao sair de copiosa
refeição, na Cilícia, atravessando o Sélef (Anatólia) – hoje Goksu.
Ricardo e Felipe Augusto chegaram ao Oriente por mar e ajudaram os Cristãos da
Síria a tomar a cidade de São João d´Acre (1191). Entre os gritos de alegria
que saudavam a tomada da cidade, Ricardo Coração de Leão, arrancou o estandarte
do Duque Leopoldo da Áustria, que foi o primeiro a ocupar a praça, jogou-o a
lama, e colocou no lugar o estandarte da Inglaterra. Este ato iria causar
graves consequências para Ricardo no futuro, apesar disso, Ricardo não mostrou
melhor relacionamento com os aliados franceses. Felipe Augusto voltou à França,
com a maior parte de seu exército, deixando poucos homens sob o comando de
Ricardo. Agora sozinho no comando, Ricardo Coração de Leão tinha tempo para
maravilhar cristãos e muçulmanos com sua louca bravura. Sua primeira ação foi
mandar matar 3000 prisioneiros muçulmanos dos quais Saladino
não se apressava a pagar o resgate com urgência exigida. Em vez de marchar para
Jerusalém, Ricardo deixou-se levar pelo astucioso sultão, assaltando uma série
de praças fortes ou a fazendo emboscadas as caravanas. O tempo era aproveitado
pelo sultão para preparar a defesa de Jerusalém. Ricardo fazia tudo para
inspirar o temor aos muçulmanos, ao mesmo tempo em que tentava conquistar a
amizade de seu adversário. Ricardo e Saladino
enviavam presentes um ao outro. Quando Ricardo se lançou contra Jafa, a fim de libertar os cristãos que ali se encontravam
sitiados, o seu cavalo foi abatido numa luta corpo a corpo, de modo que se viu
forçado a combater a pé. Então, seu cavalheiresco adversário lhe enviou um
cavalo descansado com um recado que dizia, que era
mais conveniente que os reis se batam a cavalo. Ricardo pensou até mesmo em
casar a irmã com o irmão de Saladino, Aladil, que prometera tornar-se cristão. Mas da Inglaterra
chegavam notícias que o irmão de Ricardo, João Sem-Medo ou João Sem-Terra,
havia usurpado o trono com a ajuda de Felipe Augusto. Antes de partir, Ricardo
obteve um acordo que garantia aos cristãos por três anos, a posse da maior
parte da costa palestina e lhes permitia irem em
pequenos grupos não armados em peregrinação ao Santo Sepulcro. Ricardo Coração
de Leão sobreviveu por muito tempo na memória dos muçulmanos. As mães turcas
tinham o costume de ameaçar os filhos que não queriam dormir dizendo:
"Ricardo vem aí." Isso foi o resultado que se conseguiu, junto com a
libertação de S. João d´Acre. Não foi sem aventuras que Ricardo chegou à
Inglaterra. Primeiro as tempestades puseram o seu navio à deriva, pelo que foi
parar na costa setentrional do mar Adriático. Como, além de Felipe Augusto,
outros inimigos o espreitavam, disfarçou-se de mercador e prosseguiu viagem por
terra. Nos arredores de Viena foi reconhecido e caiu em poder do seu mortal
inimigo, o duque Leopoldo, a quem tão gravemente ofendera na Palestina. Este o
manteve prisioneiro durante dois anos, enquanto seus fiéis vassalos não pagavam
o enorme resgate exigido pelo duque. Quando Ricardo foi posto em liberdade,
Felipe Augusto escreveu para João Sem-Terra, "Acautelai-vos: soltaram o
Diabo!" Assim que chegou ao seu reino, acusou o irmão de alta traição, mas
impulsivo como sempre, em breve lhe perdoou "Não é ele acima de tudo, meu
irmão?". Ricardo era novamente rei, e como tal, explorou o povo inglês,
desta vez com razão, declarou guerra a Felipe Augusto. Desembarcou na
Normandia, onde foi recebido pela multidão com aclamações. Seus inimigos
fugiram, mas sem dinheiro tentou sitiar um castelo em Chalus,
na França, ferido por uma flecha, morreu então com 42 anos. Apesar da sua
crueldade e tirania, foi um dos reis mais conhecidos da Inglaterra.
A Quarta Cruzada – 1202
Preparada pelo papa Inocêncio III,
conduzida por Bonifácio de Monferrat, a cruzada
deveria ser para atacar o Egito e depois a Palestina. Mas Veneza exigiu 85.000 marcos de prata para transportar os cruzados. Foi
proposto um acordo pelos venezianos, no qual os cruzados ajudariam a tomar a
cidade de Zara (hoje, Zadar).
Contra a ordem do Papa, Zara foi invadida e saqueada.
Em seguida, os venezianos sugeriram um ataque a Constantinopla, pois não lhes
interessava uma guerra contra os muçulmanos, com os quais comercializavam freqüentemente. Então, os cruzados decidiram atacar
Constantinopla com uma frota de 480 navios. Constantinopla foi saqueada e
parcialmente destruída. Preciosos manuscritos foram inutilizados ou perdidos,
obras primas foram roubadas, mutiladas ou destruídas. Após a rapina, foi
escolhido Balduíno de Flandres para chefiar o novo
Império Latino de Constantinopla. Tornando o francês à língua oficial. Mas em
1261, com a ajuda de Gênova, conseguiram a restauração da monarquia bizantina.
Veneza foi a grande beneficiada da quarta cruzada, reforçando suas posições
comerciais no mediterrâneo. Assim, dominou o império Bizantino até 1261. Foi
uma cruzada de cristãos contra cristãos.
A Quinta Cruzada –
1217
O fanatismo religioso levou a formação
desta cruzada, na crença que só a pureza das crianças poderia libertar a Terra
Santa. O movimento, considerado por alguns espontâneo,
foi organizado e estimulado de forma sorrateira. Induzidas pelas autoridades e
demais interessados, 31.000 crianças alemãs atravessaram os Alpes em direção a
Gênova e 20.000 crianças francesas dirigiram-se a Marselha. Marcaram seu
caminho com cadáveres dos mortos de fome e cansaço. Chegando ao mediterrâneo,
as crianças alemãs dispersaram-se e muitas morreram, Nenhum navio quis levá-las
a Palestina. Ficaram esperando o mar se abrir, como
aconteceu na passagem de Moisés, segundo a escritura. O Papa mandou buscá-las.
As crianças francesas em Marselha não tiveram a mesma sorte. Conseguiram dois
proprietários de navios que se ofereceram para levá-las ao seu destino, sem
despesa alguma. Dos sete navios que partiram, 2
naufragaram, tendo morrido todos destes navios. Os cinco outros navios foram
para o Egito e a Tunísia, onde as crianças foram vendidas como escravas.
A Sexta Cruzada –
1228
Organizada por André II, Rei da Hungria
e comandada por Frederico II, do Sacro Império Romano, alcançou a Palestina.
Frederico II por ter sido excomungado, não recebeu nenhuma cooperação dos
cristãos, mas os Sarracenos ficaram impressionados com o conhecimento que tinha
o jovem imperador da língua, literatura, ciência e filosofia árabes. Frederico
II e o sultão Al-Malik Al-Kamil, de Damasco, entenderam-se amistosamente e assinaram
o Tratado de Jafa em 1229, mediante o qual o Islã
restituía aos cristãos, S. João d´Acre, Jafa, Sidon, Nazaré, Belém e toda a Jerusalém, por dez anos.
Alguns anos mais tarde, os muçulmanos dominaram a região e o acordo foi
rompido.
A Sétima Cruzada –
1248
O santo rei da França, Luis IX, dirigiu
seus esforços de cruzado ao Egito, partindo de Aigues
Mortes em 1248. Tomaram Damieta em 1249, porém apesar
de uma primeira investida, com sucesso, os turcos atacavam por muitas vezes,
até que a fome e as doenças atacaram mais o exército de São Luis do que o
inimigo. Por fim, conseguiram aprisioná-lo (Mansurá -
1250). Lá, o rei cativo foi tão bem tratado que recebeu os cuidados do médico
particular do sultão. Dizem que a fé do rei era tamanha que alguns muçulmanos
foram convertidos ao cristianismo. Libertado mediante a entrega de Damieta, o rei teve que deixar o Egito com os cruzados.
Mesmo não conseguindo vitórias nesta cruzada, seu prestígio pessoal aumentou na
França.
A Oitava Cruzada –
1270
Tendo o Sultão Baybars
I (Rukn ad-Din Baybars Bundukdari ibn Abdullah, líder do exército Mameluco de 1265 a 1277) se
apoderado de Antioquia em 1268, Luis IX, atual São Luis, novamente organizou
uma cruzada que, sob a influência de Carlos I de Anjou,
se dirigiu para Túnis, a antiga Cartago, onde o cristianismo tinha, graças a
Santo Agostinho, lançado profundas raízes e onde muitos mártires tinham dado a
vida pela fé. São Luis esperava reconquistar esta região para o cristianismo e
converter o sultão. Mas São Luis morreu no acampamento em Túnis. O sultão
concordou em deixar os cruzados irem embora. A peste dizimou o que lhe restava
de homens válidos. Os muçulmanos conquistaram a terra santa em 1271, anos
depois da primeira cruzada. Os cavaleiros de São João d´Acre perderam a cidade
para as forças de Salomão II, dali partiram para ilha de Malta, onde
permaneceram até o fim do Século XVIII, tomando o nome de Cavaleiros de Malta.
Graças às cruzadas, as artes, as línguas e as ciências dos Árabes e dos
Bizantinos passaram a ser estudadas no Ocidente. Na agricultura, trouxeram o
açafrão, o arroz, a cana e o damasco.
Na indústria, a seda, o algodão, a
fabricação de álcool e açúcar. Veludos, damasquinos,
musselines, tapetes, couros, laminas foram adotados com processos do Oriente.
As tinturas e tecidos finos foram igualmente imitados. No comércio, cresceu o
intercâmbio do Oriente com os portos franceses e italianos do mediterrâneo.
Barcelona, Marselha e Aigues-Mortes, de um lado,
Gênova, Amalfi, Pisa e Veneza do outro. Todos tiraram
grande proveito do tráfego marítimo no mediterrâneo com a supremacia dos
italianos, o que deu início à decadência da navegação árabe e bizantina. No
plano econômico, as Cruzadas foram diretamente responsáveis pela reabertura do
Mediterrâneo à navegação e ao comércio da Europa. Essa reabertura possibilitou
o reatamento das relações entre o Ocidente e o Oriente, interrompidas pela
expansão muçulmana. Contribuiu, assim, para acelerar o renascimento comercial
da Europa no Ocidente. O fracasso das Cruzadas contribuiu indiretamente para a
decadência do sistema feudal. O reaparecimento do comércio, intensificado pela
reabertura do Mediterrâneo, propiciou o renascimento das cidades na Europa. O
renascimento comercial e urbano do ocidente europeu, a decadência do
feudalismo, o declínio do poder da nobreza e o surgimento da burguesia foram,
direta ou indiretamente, conseqüências das Cruzadas.
Nada disto impediu que a Terra Santa permanecesse sobre o domínio dos
muçulmanos até 1918.
Fatos Notáveis
Diante dos desmandos e da sandice
religiosa que antecederam a transformação da Maçonaria Operativa em simbólica,
alguém tinha que reagir a esse estado caótico de coisas. Alguns dos próprios
sacerdotes, contrários àquela vexaminosa e vergonhosa perseguição religiosa,
aliaram-se aos cadetes (nobres de sangue que não que só assumiam o poder em
caso do impedimento do primogênito) e deram início a uma silenciosa resistência
passiva. Reuniões eram efetuadas nos mais diversos e
reservados lugares, com o finco de se discutir os desmandos da Igreja. Como
o poder era transferido por hereditariedade, aqueles
que ousassem participar de uma reunião em público ou mesmo reservada, cujo fato
chegasse ao conhecimento dos donos do poder, fatalmente seriam punidos com a
pena capital. Isto porque, qualquer reunião fora ou dentro do espaço monárquico
(todo o território sob o seu comando) era considerada conspiração contra o Rei
e contra a Igreja. Por esse motivo, as oficinas dos pedreiros livres ou engenheiros
e arquitetos daquela época (os maçons atuais), no mais das vezes, serviam de
espaço para acobertar os descontentes da monarquia e da igreja. As oficinas dos
pedreiros livres não eram objetos de suspeitas, porque todos os seus membros,
em princípio, eram pessoas livres e de bons costumes. Seus membros tinham por
dever iniciático de comportarem-se
como pessoas puras, honestas e obedientes às determinações e decisões dos
poderes constituídos.
Ser pedreiros livres era uma profissão
quase nobre, já que a maioria dos seus membros era, também, os intelectuais,
matemáticos, astrônomos, engenheiros, arquitetos e professores da época. Entre
eles destacavam-se os sacerdotes mais brilhantes das monarquias, os grandes
intelectuais daquele e de outros tempos idos. Os iniciados na arte de construir
faziam parte de uma casta privilegiada, cujo prestígio era inabalável. Motivo
pelo qual, num sistema de governo no qual quase todos senão todos eram
escravos, os pedreiros podiam ir vir a qualquer outro país sem a necessidade de
maiores delongas. Além disto, eles eram dispensados dos impostos. Pois, quase
sempre eram requisitados para construírem em outros países, devido a alta capacidade e habilidade profissional, não lhes sendo
exigidos o pagamento de tributos por nenhum dos poderes, o que era, de certa
forma, mais que justo. Daí vem o atributo de pedreiros livres, já que podiam ir
e vir livremente e eram dispensados dos tributos. Como conseqüência
das reuniões que se realizavam nas dependências das oficinas dos pedreiros livres,
sem maiores censuras, os nobres, o clero e os próprios pedreiros livres se
conscientizaram de que era necessária a adoção de um novo posicionamento face
às pressões dos poderes constituídos. Selou-se, então, a resistência passiva
que deu início à reação contra a Igreja e o Poder Monárquico. O resultado foi a queda da monarquia imperialista. A seguir, vejamos a
cronologia dos antecedentes que deram origem a transição da Maçonaria Operativa
para a Simbólica, cujo maior estímulo foram as
matanças religiosas, as Cruzadas e seus sucedâneos. by Reivax.
1095 Aleixo I Comneno, imperador bizantino, envia uma embaixada ao papa
Urbano II, para lhe pedir ajuda. Ainda na primavera, o papa Urbano II inicia a
sua viagem a França. Em 18 de Novembro, deu-se a abertura do Concílio de Clermont. A 26 de Novembro, Urbano II lança o seu apelo à
Cruzada;
1096 Abril, parte a
Cruzada popular dirigida por Pedro, o Eremita, e Gautier
Sans Avoir. Massacres
de judeus na Renânia. A 6 de Julho, realiza-se o
Concílio de Nimes, quando Urbano II confia a Raimundo
de Saint-Gilles o comando de uma das expedições à Terra Santa. A 01 de Agosto,
a Cruzada popular chega a Constantinopla. No verão, deu-se a partida da Cruzada
dos barões (Godofredo de Bulhão; Raimundo IV conde de Toulouse; Boemundo de Tarento; Estêvão
conde de Blois; Tancredo de Hauteville
e Roberto II, Conde de Flandres). O imperador alemão, Henrique IV, e o rei de
França, Filipe I, estando excomungados, não puderam dirigir a Cruzada. Em 21 de
Outubro, as tropas turcas e búlgaras do sultão de Niceia, Kilij
Arslan, aniquilaram a Cruzada popular na Anatólia.
Pedro, o Eremita escapa ao massacre e foge para Constantinopla. Em 23 de
Dezembro, Godofredo de Bulhão chega em Constantinopla.
O imperador de Bizâncio exige, e obtém, após muitas recusas, a promessa de
restituição das terras e das cidades retomadas aos muçulmanos, e a aceitação da
sua soberania sobre as novas conquistas;
1097 Em fim de Abril, o exército dos barões abandona Constantinopla, passando
para a Ásia Menor. Em maio, Tiro cai nas mãos dos Fatimidas
do Egito. Em junho, ocorre a tomada de Nicéia pelos cruzados, restituída a
Bizâncio. A 1 de Julho, registrou-se a vitória franca
contra o sultão turco de Iconium (Konya), em Dorileia. Em 13 de setembro, os cruzados dividem o exército
em duas forças, em Heracléia. Ainda em 20 de outubro,
os cruzados atingem a Antioquia, e começa o cerco. A 15 de Novembro, Balduíno de Bolonha abandona o campo dos cruzados e toma a
direção de Edessa;
1098 Em fevereiro, os Bizantinos abandonam o cerco de Antioquia. Balduíno chega a Edessa. Em
março, Balduíno de Bolonha proclama-se príncipe de Edessa, após a morte de Thoros,
príncipe armênio, que lhe tinha pedido ajuda e o tinha adotado. Funda assim o
primeiro Estado Latino do Oriente. Em 3 de Junho,
deu-se a tomada de Antioquia pelos Cruzados. Boemundo
I de Tarento, chefe dos normandos da Itália
meridional, recusa devolvê-la aos bizantinos e proclama-se príncipe de
Antioquia. A 4 de Junho, os cruzados são cercados em
Antioquia por um exército de socorro, comandado por Kerbogha,
enviado pelo Sultanato seljúcida da Pérsia. Em 14 de Junho, Pedro Bartolomeu
descobre a Santa Lança debaixo das lajes de uma igreja de Antioquia. Em
28 de Junho, os cruzados de Antioquia derrotam as forças sitiantes muçulmanas.
A 26 de Agosto, os Fatimidas ocupam Jerusalém. Em 12
de dezembro, os cruzados apoderam-se de Maarat An Noman, na Siria.
A população é massacrada e a cidade destruída;
1099 Em 13 de Janeiro, os Francos retomam a sua marcha para Jerusalém. A 2 de Fevereiro, o exército passa por Qal'at-al-Hosn, o futuro Krak dos
Cavaleiros. Em 7 de Junho, o exército franco chega a
Jerusalém. Em 13 de Junho deu-se o primeiro assalto à cidade, sem qualquer
preparação prévia, o que culminou em uma imperdoável falha. A 10 de Julho,
ocorreu o assalto a Jerusalém. A muralha circundante foi atravessada. Em 15 de
Julho, firmou-se a conquista de Jerusalém pelos cruzados, seguindo-se o
massacre da população muçulmana e judia. Em, 22 de Julho, Godofredo de Bulhão
foi eleito rei de Jerusalém pelos barões, aceitando apenas o título de defensor
do Santo Sepulcro. Em 01 de Agosto, Arnoul Malecorne, patriarca de Jerusalém, foi substituído. A 12 de
Agosto, os Francos derrotam os Egípcios em Ascalon,
na costa mediterrânica, a norte de Gaza;
1100 Deu-se o acordo comercial entre Veneza e o Reino Franco de Jerusalém. Ainda
nesse ano, em 18 de Julho, ocorreu a morte de Godofredo de Bulhão. Balduíno de Bolonha, irmão de Godofredo, príncipe de Edessa, é coroado primeiro rei de Jerusalém em Belém, no
dia 25 de Dezembro;
1100 – 1101 Tivemos as cruzadas de socorro. A
primeira foi a Cruzada lombarda, dirigida pelo arcebispo de Milão, Anselmo du Buis, Raimundo de Saint-Gilles,
Estêvão-Henrique, conde de Blois, Estêvão, conde da
Borgonha e o primeiro oficial do Santo Sepulcro, Conrado. A segunda, foi a Cruzadas de Nevers e a
terceira foi a Cruzada da Aquitânia. Nenhuma delas conseguiram
atravessar a Ásia Menor, sendo sucessivamente vencidas por uma coligação dos diferentes
potentados turcos da Anatólia;
1101 Em março,
Tancredo de Hauteville, um dos chefes da primeira
Cruzada, abandona Jerusalém, regressando ao Ocidente por Antioquia. Em 17 de
maio desse mesmo ano, os francos tomam Cesareia;
1102 Raimundo de
Saint-Gilles toma Tortosa e registra-se a vitória de Balduíno em Ramla;
1103 Deu-se o início do cerco de Trípoli pelos Francos;
1104 Em 7 de maio, ocorreu a derrota dos Francos em
Harran: Balduíno du Bourg foi feito prisioneiro e
deu-se o detimento do avanço da Cruzada na
Mesopotâmia, que se dirigia para Mossoul, no rio
Tigre. Em 26 de maio, os cruzados tomam Acre com a ajuda de uma esquadra
genovesa;
1105 Em 28 de
fevereiro, Raimundo de Saint-Gilles morre em Mont-Pèlerin, durante o cerco de Trípoli, sendo sucedido
por Bertrand de Saint-Gilles;
1105 – 1113 Os “Assassinos” redobram suas atividades;
1108 Conflito entre Tancredo e Balduíno du Bourg
a propósito da restituição de Antioquia a este último;
1109 Em julho,
Trípoli cai na mão dos Francos. O conde Bertrand conquista finalmente a cidade
de que é titular;
1110 Conquista do Castelo Branco (Safita) e do Krak dos Cavaleiros.
1111 Mawdud, emir ortoqida
de Mossul, ataca os Francos, e massacra a população
de Edessa quando esta se dirigia para a margem
ocidental do rio Eufrates;
1113 Publicada a Bula do
papa Pascoal II reconhecendo oficialmente a ordem do Hospital de São João de
Jerusalém;
1115 Conquista pelos francos do castelo de Shawbak (Montréal), a sul do Mar Morto;
1118 Morte do imperador
Aleixo Comneno; a sua filha Ana começa a redação da Alexíada. Em abril, ocorreu a morte de Balduíno
I; sucede-lhe Balduíno du Bourg;
1119 Batalha de Ager Sanguinis (do campo de sangue). O emir el Ghazi,
de Diyarbakir aniquila o exército franco de Antioquia,
pertp de Atareb;
1119 – 1120 Nove cavaleiros ocidentais fundam, em Jerusalém, a Milícia dos Pobres
Cavaleiros de Cristo, que mais tarde se constituiu na Ordem dos Cavaleiros
Templários. Para alguns estudiosos essa fundação ocorreu em 1118 e para outros,
ela teria surgido, de fato, em 1114;
1123 Em 29 de maio, os Egípcios foram derrotados em Ibelin
pelo primeiro oficial do rei, Eustáquio Garnier,
regente do reino durante o cativeiro de Balduíno II;
1124 Em 7 de Julho, ocorreu a tomada de Tiro pelos
cruzados;
1129 Em Janeiro deu-se o Concílio de Troyes:
a Ordem do Templo (os Cavaleiros Templários) foi oficialmente reconhecida pelo
papa Honório III. Em 18 de junho, Zinki instalou-se
em Alepo e fez apelo à Jihad contra os Francos;
1131 Em 14 de setembro morreu Balduíno II; Foulques V, de Anjou, rei de
Jerusalém;
1135 O Hospital de São João de Jerusalém transformou-se em ordem militar;
1142 O Krak dos Cavaleiros foi cedido aos
Hospitalários de São João;
1143 Em 25 de Dezembro, Zinki, atabaque de Alepo e de Mossul, toma Edessa.
* * * * *
[1] Memo, http://www.excelsocon.org/old/literaturas/sintese_historica/historia_geral/as_cruzadas.htm, 2006
[2] Extraído da
“Gesta Francorum” adaptado e traduzido por Cato